Dança como identidade: o que o MoviRio revela sobre quem o Brasil é e quer ser
O Brasil é um país de muitos corpos. Corpos que carregam histórias de migração, de escravidão, de resistência, de miscigenação forçada e de encontros voluntários. Corpos que aprenderam a se mover ao ritmo do tambor africano, da valsa europeia, do ritmo amerindío, do tango platino, do funk carioca. Corpos que inventaram o samba, a capoeira, o forró, o frevo, o axé — e que continuam inventando.
O MoviRio Festival de Dança do Rio de Janeiro, que em 2026 chega à sua 9ª edição, é uma das mais abrangentes cartografias desses corpos e dessas histórias. Ao reunir modalidades tão diversas quanto ballet clássico, dança contemporânea, jazz, street dance, hip-hop, dança afro, samba, gafieira, pole dance, capoeira, danças folclóricas e danças de salão — e ao atrair bailarinos de 8 estados brasileiros —, o festival oferece um retrato vivo e em movimento do que o Brasil é.
A pluralidade como projeto estético
A decisão de incluir todas essas modalidades no mesmo festival não é apenas uma questão de representatividade. É uma posição estética: a de que a pluralidade é mais interessante, mais rica e mais verdadeira do que a pureza.
O ballet clássico e a capoeira têm raízes radicalmente diferentes — um vem das cortes europeias do século XVII, o outro vem da resistência dos escravizados africanos no Brasil colonial. Colocá-los no mesmo palco, com o mesmo respeito e a mesma atenção, é um gesto que vai muito além da política cultural. É uma afirmação sobre o que o Brasil pode ser quando decide não escolher entre suas heranças, mas abraçá-las todas.
Carlos Fontinelle, diretor artístico do MoviRio, entende isso. E a presença do Balé Folclórico da Bahia — com 37 anos de existência, um dos grupos de dança afro-brasileira mais respeitados do mundo — como parceiro do festival confirma que essa pluralidade é levada a sério.
O samba e a dança afro no centro, não na margem
Durante muito tempo, o debate sobre dança no Brasil operou com uma hierarquia implícita: as danças de origem europeia eram vistas como "alta cultura", enquanto as danças de origem africana e popular eram folclorismo — algo bonito e exótico, mas não "arte de verdade".
O MoviRio rejeita essa hierarquia. Ao dar espaço igualitário para todas as modalidades, e ao receber o reconhecimento explícito de Laíza Bastos, da Associação de Passistas do RJ, pela abertura do festival para o samba e a dança afro, o MoviRio está participando de uma reconfiguracão cultural mais ampla: a de reconhecer as artes de origem africana como o que sempre foram — patrimônio central, não periférico, da cultura brasileira.
A dimensão geográfica da identidade
A edição de 2026 recebe mais de 600 visitantes de sete estados: Minas Gerais, São Paulo, Bahia, DF, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Ceará. Com 8 estados representados, o festival funciona como um mapa vivo da dança brasileira — mostrando como cada região do país expressa sua identidade através do movimento.
Quando todos esses estados enviam seus representantes ao MoviRio, o Rio de Janeiro torna-se, por algumas semanas, um espelho da nação — um lugar onde o Brasil inteiro pode se ver dançando.
O que as celebridades revelam sobre a cultura
Glória Pires, Lázaro Ramos, Marieta Severo, Carlinhos de Jesus e Matheus Nachtergaele são figuras que transitam pelos mais altos escalões da cultura brasileira. Quando eles aparecem espontaneamente no MoviRio — sem cachê, sem convite formal —, estão validando o festival como um evento culturalmente legítimo.
Carlinhos de Jesus, em particular, representa uma trajetória muito específica: a de um artista que elevou a dança de salão carioca — especialmente o samba de gafieira — ao status de arte internacionalmente reconhecida. Sua presença no MoviRio ecoa a própria proposta do festival: reconhecer que a excelência pode vir de qualquer tradição, de qualquer corpo, de qualquer bairro.
Identidade como processo, não como essência
O tema da 9ª edição — "Cartografias do Corpo Brasileiro" — é um convite para pensar a identidade não como algo fixo, mas como algo que se constrói continuamente, que se mapeia à medida que se vive. O Brasil não tem uma identidade cultural estabelecida de uma vez por todas. Ele a reconstrói a cada geração, a cada encontro entre tradições diferentes.
O MoviRio é parte desse processo de reconstrução. Ao criar um espaço onde todas as danças são bem-vindas, onde todos os corpos podem se apresentar, onde o acesso é gratuito e o respeito é universal, o festival não está apenas celebrando quem o Brasil é — está participando ativamente da construção de quem o Brasil quer ser.
