Dança como identidade: o que o MoviRio revela sobre quem o Brasil é e quer ser
Cultura

Dança como identidade: o que o MoviRio revela sobre quem o Brasil é e quer ser

22 de agosto de 2025·MoviRio Festival
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De Belo Horizonte ao Ceará, do ballet clássico à capoeira, o MoviRio reúne o que o Brasil tem de mais diverso e vibrante. O que o festival nos ensina sobre a nossa identidade coletiva?

Dança como identidade: o que o MoviRio revela sobre quem o Brasil é e quer ser

O Brasil é um país de muitos corpos. Corpos que carregam histórias de migração, de escravidão, de resistência, de miscigenação forçada e de encontros voluntários. Corpos que aprenderam a se mover ao ritmo do tambor africano, da valsa europeia, do ritmo ameríndio, do tango platino, do funk carioca. Corpos que inventaram o samba, a capoeira, o forró, o frevo, o axé — e que continuam inventando.

O MoviRio Festival de Dança do Rio de Janeiro, que em 2026 chega à sua 9ª edição, é uma das mais abrangentes cartografias desses corpos e dessas histórias. Ao reunir modalidades tão diversas quanto ballet clássico, dança contemporânea, jazz, street dance, hip-hop, dança afro, samba, gafieira, pole dance, capoeira, danças folclóricas e danças de salão — e ao atrair bailarinos de 8 estados brasileiros —, o festival oferece um retrato vivo e em movimento do que o Brasil é.

A pluralidade como projeto estético

A decisão de incluir todas essas modalidades no mesmo festival não é apenas uma questão de representatividade. É uma posição estética: a de que a pluralidade é mais interessante, mais rica e mais verdadeira do que a pureza.

O ballet clássico e a capoeira têm raízes radicalmente diferentes — um vem das cortes europeias do século XVII, o outro vem da resistência dos escravizados africanos no Brasil colonial. Colocá-los no mesmo palco, com o mesmo respeito e a mesma atenção, é um gesto que vai muito além da política cultural. É uma afirmação sobre o que o Brasil pode ser quando decide não escolher entre suas heranças, mas abraçá-las todas.

Carlos Fontinelle, diretor artístico do MoviRio, entende isso. E a presença do Balé Folclórico da Bahia — com 37 anos de existência, um dos grupos de dança afro-brasileira mais respeitados do mundo — como parceiro do festival confirma que essa pluralidade é levada a sério.

O samba e a dança afro no centro, não na margem

Durante muito tempo, o debate sobre dança no Brasil operou com uma hierarquia implícita: as danças de origem europeia (ballet clássico, jazz, contemporânea) eram vistas como "alta cultura", enquanto as danças de origem africana e popular (samba, capoeira, afoxé) eram folclorismo — algo bonito e exótico, mas não "arte de verdade".

O MoviRio rejeita essa hierarquia. Ao dar espaço igualitário para todas as modalidades, e ao receber o reconhecimento explícito de Laíza Bastos, da Associação de Passistas do RJ, pela abertura do festival para o samba e a dança afro, o MoviRio está participando de uma reconfiguração cultural mais ampla: a de reconhecer as artes de origem africana como o que sempre foram — patrimônio central, não periférico, da cultura brasileira.

Essa reconfiguração tem consequências práticas. Quando uma criança negra de uma escola de samba do subúrbio carioca compete no MoviRio com a mesma dignidade que uma bailarina de ballet de uma academia de Ipanema, algo muda. A narrativa muda. O que é possível muda.

A dimensão geográfica da identidade

A edição de 2026 recebe mais de 600 visitantes de sete estados: Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Brasília (DF), Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Ceará. Com representantes de 2.405 escolas de dança em 8 estados, o festival funciona como um mapa vivo da dança brasileira — mostrando como cada região do país expressa sua identidade através do movimento.

O Rio Grande do Sul tem suas danças gaúchas e sua tradição de dança folclórica europeia. A Bahia tem o candomblé, o afoxé, o samba de roda. O Ceará tem o forró e o maracatu. Minas Gerais tem suas congadas e reinados. São Paulo tem sua diversidade de imigrantes — japoneses, italianos, coreanos, bolivianos — cada um com suas tradições de movimento.

Quando todos esses estados enviam seus representantes ao MoviRio, o Rio de Janeiro torna-se, por algumas semanas, um espelho da nação — um lugar onde o Brasil inteiro pode se ver dançando.

O que as celebridades revelam sobre a cultura

Glória Pires, Lázaro Ramos, Marieta Severo, Carlinhos de Jesus e Matheus Nachtergaele são figuras que transitam pelos mais altos escalões da cultura brasileira. Quando eles aparecem espontaneamente no MoviRio — sem cachê, sem convite formal —, estão validando o festival como um evento culturalmente legítimo, não apenas popular.

Mas há algo mais nisso. Carlinhos de Jesus, em particular, representa uma trajetória muito específica: o de um artista negro que elevou a dança de salão carioca — especialmente o samba de gafieira — ao status de arte internacionalmente reconhecida. Sua presença no MoviRio não é acidental. Ela ecoa a própria proposta do festival: reconhecer que a excelência pode vir de qualquer tradição, de qualquer corpo, de qualquer bairro.

Identidade como processo, não como essência

O tema da 9ª edição — "Cartografias do Corpo" — é um convite para pensar a identidade não como algo fixo, mas como algo que se constrói continuamente, que se mapeia à medida que se vive. O Brasil não tem uma identidade cultural estabelecida de uma vez por todas. Ele a reconstrói a cada geração, a cada encontro entre tradições diferentes, a cada jovem bailarino que aprende capoeira e ballet ao mesmo tempo.

O MoviRio é parte desse processo de reconstrução. Ao criar um espaço onde todas as danças são bem-vindas, onde todos os corpos podem se apresentar, onde o acesso é gratuito e o respeito é universal, o festival não está apenas celebrando quem o Brasil é — está participando ativamente da construção de quem o Brasil quer ser.

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