MoviRio e sustentabilidade: como um festival cultural pode ser responsável com o planeta
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MoviRio e sustentabilidade: como um festival cultural pode ser responsável com o planeta

5 de agosto de 2025·MoviRio Festival
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O MoviRio Festival de Dança do Rio de Janeiro mostra que é possível construir um dos maiores festivais de dança da América Latina com consciência ambiental, práticas sustentáveis e responsabilidade com o entorno urbano.

MoviRio e sustentabilidade: como um festival cultural pode ser responsável com o planeta

Quando se pensa em sustentabilidade no campo cultural, é comum imaginar iniciativas tímidas: um copo ecológico aqui, um banner reciclado ali. O MoviRio Festival de Dança do Rio de Janeiro — que em 2026 chega à sua 9ª edição, de 17 a 30 de agosto, na Praça Tiradentes, no Centro do Rio — oferece uma perspectiva mais profunda sobre o que significa ser um evento culturalmente relevante e ambientalmente consciente.

Sustentabilidade começa na escolha dos espaços

Um dos pilares mais silenciosos da sustentabilidade do MoviRio está na escolha estratégica de seus venues. Ao longo de sua trajetória, o festival ocupou espaços já existentes na cidade do Rio de Janeiro: o Teatro João Caetano, considerado o teatro mais antigo do Brasil, o Teatro Carlos Gomes, o Parque Lage, a Casa França-Brasil, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e, mais recentemente, a Praça Tiradentes como palco a céu aberto. Nenhuma estrutura nova precisou ser erguida. Nenhuma área verde precisou ser sacrificada.

Essa escolha não é acidental. Ela reflete uma filosofia que Carlos Fontinelle, diretor artístico e criador do festival, cultiva desde a primeira edição, em 2018, quando o Teatro João Caetano recebeu cerca de 5.000 pessoas. Usar o patrimônio cultural já existente é uma forma de sustentabilidade que vai além do ambiental: é econômica e histórica.

O festival ao ar livre como modelo

A programação ao ar livre, especialmente intensa nas edições mais recentes, reduz a necessidade de climatização artificial em grandes espaços fechados — um dos principais responsáveis pelo consumo energético em eventos. O Palco Rio, montado na Praça Tiradentes, permite que o festival chegue ao público sem que o público precise percorrer longas distâncias ou depender de transporte particular.

A Praça Tiradentes está no coração do Centro do Rio, servida por múltiplas linhas de ônibus, metrô e o sistema de bicicletas compartilhadas. Isso reduz significativamente a pegada de carbono do público — que, em edições como a de 2026, reúne mais de 600 visitantes de sete estados brasileiros (MG, SP, BA, Brasília, ES, RS e CE), além de toda a audiência local.

Acesso gratuito: sustentabilidade social

A sustentabilidade não é apenas ambiental. O acesso gratuito ao público — uma das marcas registradas do MoviRio desde sua fundação — é uma das formas mais radicais de sustentabilidade social que um festival pode praticar. Ele democratiza a experiência artística, remove barreiras econômicas e cria um público diverso que, de outra forma, jamais teria contato com ballet clássico, dança contemporânea, dança afro, samba, capoeira e folclore brasileiro numa mesma plataforma.

Em 2021, durante um dos momentos mais sombrios da pandemia, o MoviRio funcionou por 207 dias, ocupou o Parque Lage, a Casa França-Brasil e as praias do Rio, gerando 1,9 milhão de interações digitais. O formato híbrido daquele ano foi uma resposta criativa à crise — e ao mesmo tempo uma demonstração de que a sustentabilidade de um festival não se mede apenas por energia ou resíduos, mas pela capacidade de continuar existindo e servindo à sua comunidade mesmo nas condições mais adversas.

Sustentabilidade econômica e independência

O MoviRio sobrevive por meio de uma combinação de instrumentos de captação: a Lei Rouanet (Pró-Carioca), o programa IBERESCENA (parceria com a Bélgica e outros países ibero-americanos), o programa Ibermedia e apoios institucionais como a FUNARJ e a SECEC/RJ. Essa diversificação de fontes é, em si, uma estratégia de sustentabilidade: ao não depender de um único patrocinador ou de uma única linha de fomento, o festival garante continuidade mesmo quando uma fonte é interrompida.

Em 2022, o festival foi viabilizado com apoio do IBERESCENA e do CCBB, alcançando 450 mil pessoas e gerando R$858.000 em valoração de mídia. Em 2025, esse número saltou para R$3.145.671 — resultado de 86 matérias publicadas e 34 segundos de cobertura editorial no RJTV, um dos noticiários mais assistidos do Brasil. Essa capacidade de gerar retorno de mídia muito superior ao investimento direto é uma forma de sustentabilidade econômica que beneficia todos os parceiros.

O ecossistema da dança como rede viva

Talvez a dimensão mais profunda da sustentabilidade do MoviRio esteja na construção de um ecossistema vivo para a dança brasileira. Com 1.091 bailarinos inscritos, 522 coreografias e representantes de 2.405 escolas de dança em 8 estados para a edição de 2026, o festival funciona como uma rede que conecta artistas, escolas, produtores e públicos de todo o Brasil.

O Prêmio NOC (Novos Coreógrafos), em parceria com a FUNARJ, distribui mais de R$27.000 para talentos emergentes — sustentando carreiras que, sem esse apoio, poderiam ser abandonadas por falta de incentivo ou reconhecimento. Como disse Fabiano Carneiro, coordenador de dança da FUNARJ: "O MoviRio já faz parte do calendário nacional." Essa frase resume o que significa um festival sustentável: é aquele que não depende de uma gestão ou de um momento, mas que se integra à cultura de um país.

Sustentabilidade como atitude contínua

A sustentabilidade do MoviRio não está num manual ou numa política declarada. Ela está embutida nas decisões cotidianas: usar espaços existentes, garantir acesso gratuito, diversificar fontes de financiamento, construir parcerias duradouras, valorizar a diversidade de corpos e modalidades e manter a programação ao ar livre sempre que possível.

O desafio para os próximos anos é aprofundar essas práticas — documentar a pegada ambiental das edições, criar critérios explícitos de responsabilidade com os espaços ocupados e comunicar essas escolhas ao público de forma transparente. Um festival que já é grande tem a obrigação de ser um modelo. E o MoviRio, com sua trajetória de quase uma década, tem todas as condições de liderar essa agenda no campo da dança brasileira.

A 9ª edição, em agosto de 2026, com o tema "Cartografias do Corpo", é uma oportunidade de marcar esse compromisso de forma ainda mais clara — mostrando que mapear o corpo é também mapear o lugar que habitamos, cuidar do espaço que compartilhamos e deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos.

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