EXPOMAG: como o maior centro de convenções do Rio se tornou parte do calendário cultural da dança
O EXPOMAG — Expo Mag Convention Center — não foi construído para a dança. Foi construído para feiras, convenções, congressos empresariais, lançamentos de produtos, cerimônias corporativas. É o maior centro de convenções do Rio de Janeiro, com área de eventos que ultrapassa 50.000 metros quadrados, localizado em São Cristóvão.
E no entanto, em 2023, o EXPOMAG se tornou palco do MoviRio Festival de Dança do Rio de Janeiro.
Essa justaposição — o maior festival de dança da América Latina no maior centro de convenções do Rio — é exatamente o tipo de movimento que o MoviRio faz ao longo de sua trajetória: encontrar espaços inesperados e descobrir o que acontece quando a dança os habita.
O que é o EXPOMAG
Inaugurado em 2000, o EXPOMAG é operado pela Fundação Roberto Marinho em parceria com outras entidades e se tornou ao longo das décadas o principal endereço carioca para grandes eventos. Localizado no Pavilhão de São Cristóvão — região de forte identidade cultural nordestina, conhecida pela Feira de São Cristóvão —, o EXPOMAG atrai centenas de eventos por ano, movimentando a economia da cidade e recebendo públicos nacionais e internacionais.
SuaS características físicas são impressionantes: pé-direito altíssimo, estrutura modular que permite configurações variadas, capacidade para dezenas de milhares de pessoas em determinadas montagens, infraestrutura técnica de ponta. É, em essência, um espaço que pode se tornar qualquer coisa dependendo de como for ocupado.
Quando o MoviRio chegou ao EXPOMAG em 2023, a pergunta que precisava ser respondida era exatamente essa: o que acontece quando um festival de dança ocupa um espaço de convenções?
2023: o MoviRio no EXPOMAG
A edição de 2023 do MoviRio foi marcada pela escolha do EXPOMAG como sede principal. Para um festival que nasceu no Teatro João Caetano em 2018 e que ao longo dos anos passou por teatros históricos, parques e espaços ao ar livre, o EXPOMAG representou uma escala diferente.
O centro de convenções permitiu ao MoviRio operar em múltiplas dimensões simultaneamente. Enquanto apresentações aconteciam em um palco principal de grande porte, outras atividades podiam ocorrer em espaços adjacentes: workshops, masterclasses, mostras competitivas, exposições fotográficas sobre a história do festival.
O formato se aproximou de uma combinação entre festival e feira — uma feira da dança, por assim dizer. Companhias de diferentes estados, escolas de dança, coreógrafos, professores, agentes culturais e público em geral compartilhavam o mesmo espaço gigantesco, criando uma atmosfera de congresso profissional combinada com a energia de um festival artístico.
Escala e democracia
Um dos aspectos mais significativos da edição no EXPOMAG foi a escala que o espaço permitiu. Com 1.091 bailarinos inscritos em 2026 (número que reflete o crescimento sustentado do festival ao longo dos anos), a questão da capacidade física sempre foi um desafio para o MoviRio.
Enquanto teatros históricos como o João Caetano ou o Carlos Gomes têm capacidade limitada e cada apresentação alcança um público relativamente restrito, um espaço como o EXPOMAG permite que centenas — ou milhares — de espectadores assistam à mesma apresentação. Para um festival que tem como princípio fundamental o acesso gratuito, essa capacidade aumentada não é trivial: significa que mais pessoas podem assistir mais dança.
A democratização do acesso não é apenas uma questão de gratuidade do ingresso. É também uma questão de capacidade. O EXPOMAG, ao dar ao MoviRio escala física, ampliou a democracia do acesso.
O desafio da humanização de espaços gigantes
Nem tudo é vantagem em espaços de grande porte. Centros de convenções foram projetados para eficiência logística, não para experiências íntimas. O pé-direito que impressiona em uma feira de automóveis pode tornar uma apresentação de dança contemporânea algo distante e frio. A multiplicidade de espaços pode fragmentar o público em vez de uni-lo.
A equipe do MoviRio — com Carlos Fontinelle na direção artística e André Adami na produção — precisou trabalhar a humanização do EXPOMAG. A criação de zonas de convivência, a curadoria da sinalização, a distribuição estratégica das atividades pelo espaço, a gestão dos fluxos de público: tudo isso foi parte do trabalho de tornar um centro de convenções em um festival de dança.
O resultado mostrou que a tarefa era possível. E que os desafios de escala traziam também oportunidades: ao ocupar o EXPOMAG com dança, o MoviRio mostrou que a arte pode habitar qualquer espaço que esteja disposto a recebê-la.
O contexto de São Cristóvão
Não é acidental que o EXPOMAG esteja em São Cristóvão. O bairro é um dos mais ricos em identidade cultural popular do Rio de Janeiro: a Feira de São Cristóvão, conhecida como a capital do Nordeste no Rio, fica literalmente ao lado do EXPOMAG e é um dos lugares mais vibrantes de dança, música e cultura nordestina da cidade.
O forró, o baião, o coco de roda, a dança do xaxado: tudo isso pulsa em São Cristóvão. Quando o MoviRio chegou ao EXPOMAG em 2023, estava chegando a um território que já conhecia a dança de outras formas. O festival de dança contemporânea e o bairro de tradição cultural nordestina: outro encontro improvável que o MoviRio soube fazer funcionar.
O legado do EXPOMAG no calendário do MoviRio
Mesmo que o EXPOMAG tenha sido parte da trajetória do MoviRio em edições anteriores e que a 9ª edição, em 2026, aconteça na Praça Tiradentes, o aprendizado acumulado na experiência com o centro de convenções permanece.
O MoviRio aprendeu com o EXPOMAG que o festival é capaz de operar em escalas muito diferentes: do teatro íntimo de 200 lugares ao espaço de convenções para dezenas de milhares. Essa flexibilidade é um dos ativos mais valiosos de um festival que, desde 2018, acumulou uma variedade de venues que poucos festivais de qualquer linguagem artística no Brasil podem igualar.
O EXPOMAG também confirmou que a dança tem poder de ressignificar qualquer espaço que a acolhe. E que o Rio de Janeiro tem espaços suficientes, diversos o bastante e abertos o bastante para abrigar um festival que cresceu 266% em algum de seus indicadores-chave ao longo de suas primeiras edições.
A capital da dança do Brasil precisa de espaços à sua altura. E o Rio, felizmente, tem-nos.
