Dançar na floresta: o MoviRio no Parque Lage e a magia de um palco natural
Espaços

Dançar na floresta: o MoviRio no Parque Lage e a magia de um palco natural

8 de agosto de 2025·MoviRio Festival
Parque Lagedança na naturezaMoviRioYole Mendonça

Quando o MoviRio escolheu o Parque Lage como um de seus palcos, a natureza se tornou cenografia. A diretora do espaço, Yole Mendonça, confirmou: 'É um prazer receber o MoviRio.' Entenda por que essa parceria é única.

Dançar na floresta: o MoviRio no Parque Lage e a magia de um palco natural

Imagine uma bailarina executando uma coreografia contemporânea enquanto, ao fundo, a Floresta da Tijuca sobe em direção ao Corcovado. Imagine o som das sapatilhas misturado ao canto dos pássaros tropicais. Imagine o público sentado na grama, entre as palmeiras imperiais, assistindo a uma obra que dialoga com o verde ao redor.

Esse é o MoviRio no Parque Lage. Um encontro que, quando acontece, parece inevitável — como se aquele palco sempre tivesse esperado por aquela dança.

Um dos espaços mais especiais do Rio

O Parque Lage é um dos endereços mais queridos do Rio de Janeiro. Situado no bairro do Jardim Botânico, aos pés da Floresta da Tijuca, o parque abriga a Escola de Artes Visuais do Parque Lage — uma das mais importantes do Brasil — dentro de uma mansão eclética construída no início do século XX pelo industrial Henrique Lage para sua esposa, a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni.

A mansão, com sua piscina central envolta por arcos, seus jardins cuidadosamente mantidos e a floresta ao fundo, cria uma atmosfera que mistura história, arte e natureza de uma forma que poucos espaços no mundo conseguem replicar. Não é por acaso que o parque é um dos locais de filmagem mais requisitados do Rio, nem que artistas e criadores de todo o mundo buscam suas instalações para residências e exposições.

Quando o MoviRio chegou ao Parque Lage, a diretora do espaço, Yole Mendonça, recebeu o festival com uma frase que diz tudo sobre a natureza dessa parceria: "É um prazer receber o MoviRio."

Por que o Parque Lage e a dança se entendem

A dança é uma arte que acontece no espaço. Mais do que qualquer outra linguagem artística, ela é inseparável do ambiente onde se manifesta. Um espetáculo de dança em um teatro fechado tem uma energia. O mesmo espetáculo ao ar livre, com um jardim histórico e uma floresta como pano de fundo, é outra experiência inteiramente diferente.

O Parque Lage oferece ao MoviRio algo que nenhum teatro pode dar: a natureza como dramaturgia. O coreógrafo que cria para aquele espaço tem que conversar com a luz solar, com o verde, com a arquitetura orgânica dos jardins, com a irregularidade do terreno. O resultado inevitavelmente produz obras que só poderiam existir ali.

Carlos Fontinelle, diretor artístico do MoviRio, sempre buscou criar situações em que o espaço e a dança se transformam mutuamente. O Parque Lage é um dos mais eloquentes exemplos dessa filosofia. Quando um bailarino dança entre as palmeiras imperiais do jardim, ele não está apenas usando o espaço como cenário: ele está em diálogo com 100 anos de história arquitetônica e natural.

A edição de 2021: o MoviRio e a floresta durante a pandemia

Foi na edição de 2021 que o Parque Lage ganhou um papel especialmente significativo no MoviRio. Aquele ano foi um dos mais desafiadores da história do festival: ainda sob o peso da pandemia, o MoviRio se estendeu por 207 dias — uma duração sem precedentes — e se espalhando por múltiplos espaços ao ar livre do Rio, incluindo o Parque Lage, a Casa França-Brasil e as praias.

Em um momento em que os teatros estavam fechados ou operando com capacidade reduzida, a natureza se tornou a sala de espetáculos possível. O Parque Lage, com seus amplos jardins que permitiam o distanciamento necessário, foi um dos poucos espaços que possibilitou apresentações presenciais com segurança.

Aquela edição encerrou com 1,9 milhão de interações digitais, mas as apresentações presenciais no Parque Lage ficaram na memória de quem esteve lá como algo único: dança ao vivo em tempo de pandemia, com a floresta como testemunha.

A programação no Parque Lage: o que esperar

As apresentações do MoviRio no Parque Lage têm características próprias. Por ser um espaço de escola de artes, o parque atrai naturalmente um público já familiarizado com experimentação e vanguarda. Não por acaso, a programação destinada ao Parque Lage tende a privilegiar obras mais experimentais, intervenções site-specific e peças que exploram a relação entre corpo e natureza.

A dança contemporânea encontra no Parque Lage um interlocutor ideal. As árvores centenárias, os espelhos d'água, os arcos da mansão: tudo isso vira material dramatúrgico nas mãos de coreógrafos que sabem ler o espaço.

Mas o parque também já recebeu outras linguagens. Manifestações de dança afro, com suas raízes em cosmologias que reverenciam a natureza, encontram no verde do Parque Lage uma ressonância especial. A capoeira, que nasceu ao ar livre, volta a respirar no espaço aberto. O samba, que é tradição viva, dialoga com a história da mansão que um dia abrigou uma cantora de ópera.

O público que o Parque Lage convida

O perfil do público que o Parque Lage atrai para o MoviRio é diferente do público da Praça Tiradentes ou dos grandes teatros. São frequentadores habituais do parque — pessoas que vêm caminhar pela floresta, visitar exposições, tomar café no restaurante —, estudantes da Escola de Artes Visuais, moradores do Jardim Botânico, Gávea e Lagoa, e visitantes de outros estados que incluem o Parque Lage no roteiro cultural carioca.

Esse público que talvez não fosse ao MoviRio em um teatro do Centro vira espectador de dança porque estava passando pelo parque. E é exatamente essa surpresa, esse encontro não planejado com a arte em movimento, que o festival valoriza.

Cartografias do Corpo na floresta

O tema da 9ª edição do MoviRio, "Cartografias do Corpo", encontra no Parque Lage uma das suas expressões mais literais. A floresta é em si uma cartografia: cada trilha, cada árvore, cada espécie vegetal conta uma história de ocupação, de crescimento, de vida.

Quando a dança entra nessa floresta, ela acrescenta mais uma camada a esse mapa vivo. O corpo do bailarino traça rotas pelo espaço que nunca existiram antes e não existirão de novo. Cada apresentação no Parque Lage em agosto de 2026 será uma cartografia única, efêmera, que desaparecerá quando o movimento parar.

Essa efemeridade, tão própria da dança, ganha no Parque Lage um sentido adicional. A floresta permanece; a dança passa. E o que fica é a memória de um encontro entre dois tipos de vida: a vegetal, que cresce lentamente, e a humana em movimento, que dura o tempo de uma respiração.

Yole Mendonça e sua equipe sabem disso. É por isso que receber o MoviRio é um prazer: porque quando o festival parte, o parque não é mais exatamente o mesmo.

Tags

Parque Lagedança na naturezaMoviRioYole MendonçaFloresta da Tijucaespaço cultural
← Todos os artigosInscreva-se no MoviRio 2026