Todos os corpos dançam: a política de inclusão do MoviRio e o que ela significa para o ecossistema da dança
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Todos os corpos dançam: a política de inclusão do MoviRio e o que ela significa para o ecossistema da dança

28 de agosto de 2025·MoviRio Festival
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Do samba à dança afro, do ballet ao pole dance, o MoviRio reconhece que todos os corpos têm o direito de dançar e de ser vistos dançando. Uma análise da política de inclusão que define o festival.

Todos os corpos dançam: a política de inclusão do MoviRio e o que ela significa para o ecossistema da dança

Existe uma pergunta que toda criança que começa a estudar dança eventualmente enfrenta: meu corpo é o tipo certo de corpo para dançar?

É uma pergunta carregada de ansiedade, de comparação e, muitas vezes, de dor. O mundo da dança — especialmente o ballet clássico, mas não só ele — tem uma história longa e complicada com a questão dos corpos: quais corpos são considerados adequados, quais são excluídos, quais precisam se transformar para serem aceitos.

O MoviRio Festival de Dança do Rio de Janeiro, que em 2026 chega à sua 9ª edição, oferece uma resposta diferente a essa pergunta. E essa resposta está incorporada na estrutura do festival, não apenas em seu discurso.

A pluralidade de modalidades como política de inclusão

A decisão de incluir ballet clássico, dança contemporânea, jazz, street dance, hip-hop, dança afro, samba, gafieira, pole dance, capoeira, danças folclóricas e danças de salão num único festival não é apenas uma questão de variedade de programação. É uma declaração política: não existe um único tipo correto de dança, e portanto não existe um único tipo correto de corpo para dançar.

Cada modalidade tem sua própria relação com o corpo. O ballet clássico trabalha com extensão, leveza e linhas verticais. A capoeira trabalha com agilidade, explosão e fluidez. A dança afro trabalha com o centro de gravidade baixo, com a terra, com a percussão. O samba trabalha com o quadril, com o ritmo sincopado, com a alegria do movimento circular. O pole dance trabalha com força, flexibilidade e coragem.

Nenhum desses corpos é "mais certo" do que o outro. Ao colocá-los todos no mesmo palco, o MoviRio afirma que a excelência existe em múltiplas formas — e que o julgamento sobre qual corpo é adequado para qual dança pertence à técnica e à tradição de cada modalidade, não a um ideal externo de beleza ou forma.

O acesso gratuito como inclusão econômica

A inclusão no MoviRio não é apenas uma questão de diversidade de modalidades. Ela começa antes mesmo de chegar ao palco: na decisão de manter a entrada gratuita para o público.

Numa cidade como o Rio de Janeiro, onde as desigualdades econômicas são gritantes, o acesso gratuito é a diferença entre um festival que pertence à cidade inteira e um festival que pertence a quem pode pagar. Com eventos em espaços como o Parque Lage, a Praça Tiradentes e as praias cariocas — todos de fácil acesso —, o MoviRio levou a dança de alta qualidade a públicos que raramente teriam a oportunidade de ver um espetáculo profissional.

Em 2019, durante 21 dias, em parceria com o MetrôRio, o festival alcançou 1 milhão de pessoas. A parceria com o metrô é, ela própria, um símbolo: o festival acontecia nos fluxos da cidade, nos espaços que as pessoas atravessam cotidianamente, não em salas de espetáculo fechadas que exigem deslocamento e investimento.

O samba e a dança afro: da margem ao centro

Um dos gestos de inclusão mais significativos do MoviRio é o espaço que ele abre para o samba e a dança afro — tradições que, apesar de serem centrais na cultura carioca e brasileira, nem sempre foram tratadas com o mesmo respeito que as danças de origem europeia no circuito formal de festivais.

Laíza Bastos, da Associação de Passistas do RJ, reconheceu publicamente a abertura do festival para essas modalidades. Esse reconhecimento não é protocolar — vem de uma comunidade que tem razões históricas para desconfiar de espaços culturais que dizem ser inclusivos mas, na prática, marginalizam as tradições de origem africana.

A presença do Balé Folclórico da Bahia — com 37 anos de existência, um dos grupos mais respeitados da dança afro-brasileira — como parceiro do MoviRio reforça essa escolha. O festival não apenas inclui: ele eleva.

1.091 bailarinos, 8 estados: a inclusão geográfica

A edição de 2026 recebe 1.091 bailarinos de 8 estados brasileiros. Mais de 600 visitantes vieram de 7 estados (MG, SP, BA, Brasília, ES, RS e CE) especificamente para participar do festival. Isso representa uma dimensão de inclusão que raramente é discutida: a inclusão geográfica.

Um festival que só consegue atrair participantes do Rio de Janeiro é um festival que, mesmo sem querer, exclui. A tradição de dança de Fortaleza é diferente da do Rio. A de Porto Alegre é diferente da de Salvador. Ao atrair bailarinos de todos esses estados — e ao criar condições logísticas para que essa presença seja possível —, o MoviRio reconhece que a dança brasileira não é uma coisa só. É um arquipélago de tradições que merecem ser vistas em diálogo.

O Prêmio NOC e a inclusão das novas vozes

O Prêmio NOC (Novos Coreógrafos), em parceria com a FUNARJ, distribui mais de R$27.000 para talentos emergentes. Ele é, em sua essência, uma política de inclusão intergeracional: reconhece que os grandes coreógrafos do futuro existem hoje, mas podem não ter ainda as condições para desenvolver plenamente seu trabalho.

Sem apoio, muitos jovens talentos abandonam a dança em favor de carreiras mais estáveis economicamente. O Prêmio NOC é uma aposta: a de que, com o investimento certo, esses talentos podem permanecer na área e enriquecer o ecossistema da dança brasileira. É inclusão não apenas do presente, mas do futuro.

O que a inclusão real exige

Inclusão real — não a que está nos discursos, mas a que está nas práticas — exige escolhas difíceis. Exige abrir mão de uma estética homogênea em favor de uma programação mais complexa. Exige investir em relações com comunidades que historicamente desconfiaram dos espaços culturais formais. Exige manter o acesso gratuito mesmo quando a receita de bilheteria tornaria a operação financeiramente mais fácil.

O MoviRio faz essas escolhas. Não perfectamente — nenhum festival é perfeito —, mas consistentemente, ao longo de quase uma década. E o resultado é um festival que pertence, de fato, a muitos: a todos os corpos, a todas as tradições, a todas as regiões, a todas as gerações que compõem a dança brasileira.

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