Formando plateia: o papel educativo do MoviRio para além das inscrições e competições
Cultura

Formando plateia: o papel educativo do MoviRio para além das inscrições e competições

25 de agosto de 2025·MoviRio Festival
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O MoviRio não é apenas um festival para quem dança — é um festival para quem quer aprender a assistir. Com acesso gratuito e programação em espaços públicos, o festival desempenha um papel educativo fundamental para o público carioca e brasileiro.

Formando plateia: o papel educativo do MoviRio para além das inscrições e competições

Há uma dimensão do MoviRio que raramente aparece nos títulos das reportagens, mas que seus criadores consideram tão importante quanto a competição e a premiação: a formação de plateia. A ideia de que um festival de dança não existe apenas para quem dança — existe, talvez principalmente, para quem ainda não sabe que ama a dança.

Desde sua primeira edição, em 2018 no Teatro João Caetano, Carlos Fontinelle e sua equipe tomaram uma decisão que define o festival até hoje: o acesso é gratuito. Não apenas à programação ao ar livre — à programação inteira, incluindo os espaços fechados. Essa escolha não é econômica; é filosófica. É uma declaração de que a dança pertence a todos, e que um festival que cobrar ingresso para entrar está, por definição, excluindo parte do público que mais se beneficiaria de estar ali.

O que significa acesso gratuito em um festival de dança

No Brasil, o acesso à arte é historicamente marcado por barreiras econômicas, geográficas e simbólicas. A arte erudita — e a dança, especialmente em suas formas mais sofisticadas — muitas vezes é percebida como algo para um público específico: educado, de renda mais alta, habitué de teatros e centros culturais.

O MoviRio desafia essa percepção de forma prática. Quando o festival ocupa a Praça Tiradentes — uma das praças mais populares do Centro do Rio, ponto de passagem de trabalhadores, turistas e moradores da região —, ele está dizendo que a dança não precisa de uma porta com bilheteira para ter valor. Ela pode acontecer ali, no espaço público, para quem passa e decide parar. Para a criança que nunca entrou em um teatro. Para o idoso que não tem costume de consumir eventos culturais. Para o trabalhador que tem 20 minutos de intervalo no almoço.

Em 2019, quando o festival atingiu 1 milhão de pessoas em parceria com o MetrôRio, essa lógica se radicalizou: a dança invadiu o espaço de maior fluxo popular da cidade — o metrô — e levou a experiência artística para pessoas que não haviam planejado ver dança naquele dia. A surpresa, nesse contexto, é ela própria um ato pedagógico.

O que o público aprende ao assistir ao MoviRio

Assistir a um festival de dança como o MoviRio educa o espectador de formas que nem sempre ele percebe conscientemente. A primeira e mais importante: a percepção de que a dança é plural.

Em uma mesma tarde de programação do MoviRio, um espectador pode assistir a um grupo de ballet clássico executando repertório com técnica impecável, em seguida ver uma coreografia de dança afro que carrega séculos de história e resistência cultural, depois um grupo de hip-hop que traz para o palco a estética das ruas, e encerrar com uma dupla de gafieira que conta histórias com o corpo de uma forma que transcende palavras.

Essa pluralidade, vivenciada ao vivo, modifica a percepção do espectador sobre o que a dança é e pode ser. Cria conexões entre diferentes tradições culturais. Rompe preconceitos. Constrói uma compreensão mais rica e mais democrática da arte do movimento.

Dança afro, samba e a valorização das culturas populares

Um aspecto particularmente importante da dimensão educativa do MoviRio é o espaço que o festival dá às danças de raiz popular — especialmente a dança afro e o samba. Laíza Bastos, da Associação de Passistas do Rio de Janeiro, reconheceu publicamente a abertura do MoviRio para o samba e a dança afro como um gesto de respeito e valorização dessas tradições.

Essa escolha tem um impacto educativo profundo. Para crianças e jovens de comunidades negras e periféricas, ver suas danças no mesmo palco e com o mesmo respeito que o ballet clássico é uma mensagem poderosa: sua cultura tem valor. Seu corpo tem valor. Sua dança tem valor.

Para espectadores de outros perfis, a mesma presença oferece uma educação sobre as riquezas da cultura brasileira que o sistema formal de ensino raramente oferece. O MoviRio faz, na prática, o que os currículos escolares tentam fazer na teoria: apresentar a diversidade cultural do Brasil como um patrimônio coletivo a ser celebrado.

O Balé Folclórico da Bahia e a tradição viva

A parceria do MoviRio com o Balé Folclórico da Bahia — companhia com 37 anos de existência e reconhecimento internacional — é um exemplo perfeito da dimensão educativa do festival. O Balé Folclórico carrega em seu repertório manifestações culturais afro-brasileiras que remontam à história da escravidão e à resistência cultural dos povos africanos no Brasil.

Ver o Balé Folclórico da Bahia ao vivo é, para muitos espectadores, o primeiro contato real com essa herança cultural. É uma experiência que nenhum livro didático consegue proporcionar — o contato direto com corpos que dançam histórias, que carregam memórias coletivas, que revelam uma inteligência cultural acumulada ao longo de gerações.

Celebridades que educam pela presença

Quando Glória Pires, Lázaro Ramos, Marieta Severo, Carlinhos de Jesus e Matheus Nachtergaele comparecem espontaneamente ao MoviRio, eles não estão apenas sendo espectadores — estão enviando uma mensagem cultural para seus milhões de seguidores e admiradores: este festival importa. Esta dança merece sua atenção.

Esse tipo de endosso orgânico tem um efeito de formação de plateia que nenhuma campanha de marketing consegue replicar. Quando uma pessoa que admira Lázaro Ramos descobre que ele foi ao MoviRio por escolha própria, ela se pergunta: o que há ali que eu ainda não vi? E vai descobrir.

O MoviCast e a extensão educativa para além do festival

A dimensão educativa do MoviRio não se limita aos dias do festival. O MoviCast, podcast oficial do festival disponível no Spotify, leva conversas sobre dança, cultura, criação artística e gestão cultural para qualquer pessoa com um smartphone e fones de ouvido. É uma extensão da missão educativa do festival para além de seus limites físicos e temporais.

Um investimento no futuro da cultura brasileira

Formar plateia é investir no futuro da cultura brasileira. O público que o MoviRio cria hoje — que aprende a apreciar a dança em toda a sua pluralidade, que descobre que a arte pode ser gratuita e acessível, que compreende que as danças populares têm a mesma dignidade que as eruditas — é o público que, amanhã, lotará teatros, apoiará políticas culturais e transmitirá para seus filhos o valor que a arte tem na vida humana.

Na 9ª edição, com o tema "Cartografias do Corpo", o MoviRio continua essa missão. De 17 a 30 de agosto de 2026, na Praça Tiradentes, o festival estará aberto — e gratuito — para quem quiser descobrir o que a dança tem a dizer.

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